Diretora afirma que foi ameaçada e passou mal após acionar SAMU para socorrer criança de 1 ano. Prefeitura teria acolhido agressora e oferecido um “prêmio de consolação” como resposta ao caso.
A professora Leonor de Abreu Silva Santos, com 12 anos de atuação na rede municipal de Taubaté, relata ter vivido um dos momentos mais traumáticos de sua carreira no dia 20 de maio de 2025, ao tentar proteger um bebê de apenas um ano de idade que apresentava febre constante.
Segundo Leonor, a criança vinha tendo febre por quase três semanas seguidas. Em uma das ocasiões anteriores, ela acionou o SAMU porque a mãe se recusou a buscar a criança alegando que estava trabalhando. Quando o SAMU chegou, a mãe também apareceu e começou a gritar, sendo repreendida pelo médico socorrista, que pediu para ela parar os gritos e deixar a equipe atender a menina, que estava com quase 40 graus de febre.
No dia 20 de maio, enquanto participava de uma reunião da Secretaria de Educação sobre o alto número de licenças médicas — principalmente por saúde mental — a equipe da escola tentou novamente contato com a mãe, com o pai e com amigos da família, pois a criança estava com febre outra vez. Nenhuma resposta veio. Ao retornar para a escola antes do horário, Leonor enviou mensagem avisando que acionaria o SAMU, e a mãe respondeu com gritos em áudio dizendo que não autorizava e que “a criança tinha mãe”.
Às 15h, a mulher chegou na escola, recusou-se a assinar a ata dos episódios anteriores e iniciou uma série de ofensas e ameaças. Segundo Leonor, ela chutou o portão, gritou que “ia me bater”, que “ia me pegar às quatro da manhã” e que já sabia onde eu fazia compras para me encontrar novamente.
Leonor chamou a Guarda Civil Municipal, registrou boletim de ocorrência e, em estado de choque, foi levada ao hospital regional com pressão 19×15, taquicardia e crise de ansiedade generalizada. Foi sedada e saiu do hospital de cadeira de rodas. “Uma professora teve que me levar. Estava tão nervosa que mal consegui gravar o áudio da agressão”, contou.
Mesmo diante da gravidade, afirma que a Prefeitura de Taubaté não a acolheu. “Me mandaram voltar ao trabalho, disseram que eu tinha que entender o lado da mãe. Ela foi acolhida. Eu, não.”
No dia seguinte, os amigos da mãe foram levar a criança na escola e um deles ironizou: “A diretora não veio? Tá com medo de apanhar?”
Apesar dos boletins de ocorrência, prints de mensagens, vídeos, áudios e documentos que Leonor reuniu, a criança continuou matriculada na mesma unidade. “A resposta que eu recebi foi que optaram por não transferir a criança — e no mesmo momento me ofereceram uma coordenação pedagógica, como se fosse prêmio de consolação. Eu recusei. Não era isso que eu esperava.”
Em seu depoimento, Leonor desabafa: “Eu fiquei oito dias trancada dentro de casa chorando, achando que eu tinha feito algo errado. Mas eu fiz o que era certo: protegi uma criança. Se algo acontecesse com ela, a culpa seria minha. E se eu não fizesse nada, a culpa também seria minha. A culpa é sempre nossa.”
Ela afirma que já está reunindo todos os documentos e vai acionar a Justiça. “Não só contra a agressora, mas também contra a Prefeitura. Passei em concurso público. O mínimo que eu e todos da educação merecemos é dignidade e respeito — e nem isso estamos tendo.”
Ao final do vídeo, conclui:
“Somos as novas Genis de Chico Buarque. Ajudamos, apanhamos, somos desprezadas… e seguem nos culpando.”
A Secretaria de Educação de Taubaté foi procurada, mas não respondeu até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para manifestação.
